Uma tecnologia digital para rastreabilidade de produtos agrícolas permite acompanhar as cadeias de suprimentos de soja , café e carne bovina desde a origem até o mercado. Disponível como API (Interface de Programação de Aplicativos), a Embrapa Trace é uma ferramenta tecnológica desenvolvida para verificar o cumprimento das normas agroambientais e sanitárias no agronegócio, garantindo que os produtos brasileiros tenham acesso a mercados estratégicos e que as exportações permaneçam competitivas.
O Embrapa Trace faz parte de outras soluções estratégicas desenvolvidas pela pesquisa pública brasileira. A tecnologia utiliza informações do TerraClass , um projeto da Embrapa e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ( Inpe ) que fornece dados atualizados sobre a dinâmica da cobertura e do uso da terra na Amazônia e no Cerrado. Além disso, conecta-se ao ElegiAgro, um sistema desenvolvido pela empresa que automatiza a análise da elegibilidade agroambiental por meio do cruzamento de dados cadastrais, de posse da terra e geoespaciais para verificar a conformidade da produção.
“Trata-se de um conjunto de critérios de rastreabilidade por cadeia produtiva, que se conecta ao ElegiAgro e ao TerraClass — outras soluções da Embrapa — para garantir a conformidade agroambiental e a integridade das informações sobre uso e cobertura do solo. O Embrapa Trace padroniza as informações autodeclaradas, valida e integra as certificações existentes e consolida as evidências de sustentabilidade e rastreabilidade em um único relatório de conformidade — como um passaporte digital do produto”, explica Anderson Alves , pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (São Paulo).
A solução está em conformidade com os requisitos internacionais, como o Regulamento da União Europeia sobre o Desmatamento ( EUDR ) e as normas que regem o uso de antimicrobianos na produção animal. Com a tecnologia, cada etapa da produção pode ser rastreada individualmente, permitindo a incorporação de atividades ainda não certificadas e o desenvolvimento de novos protocolos e modelos de controle para garantir o cumprimento das exigências.
A crescente demanda nos mercados internacionais por produtos agrícolas produzidos com práticas sustentáveis apresenta ao Brasil o desafio de aprimorar seus sistemas de monitoramento, avaliação e rastreamento da produção. A combinação de dados geoespaciais, inteligência artificial, critérios objetivos de elegibilidade e protocolos de rastreabilidade pode trazer transparência, verificabilidade e credibilidade à produção brasileira. Isso fortalece a imagem do país como fornecedor de alimentos e produtos agrícolas sustentáveis, bem preparado para atender às novas demandas do comércio internacional.
As regulamentações internacionais estabelecem novos padrões para o comércio de commodities, exigindo que produtos como soja, café e carne sejam acompanhados de informações confiáveis sobre sua origem e demonstrem conformidade com os critérios ambientais e legais definidos pelo mercado consumidor. “Nesse contexto, a adaptação do setor agropecuário brasileiro deve ser entendida não apenas como uma exigência para o acesso ao mercado, mas também como uma oportunidade estratégica para trazer mais transparência, credibilidade e valor à produção nacional”, observa o pesquisador.
Luiza Kreimeier, assessora técnica do Conselho Nacional do Café ( CNC ), destaca o potencial da tecnologia para fortalecer a rastreabilidade na agricultura. “Isso é especialmente verdadeiro na cadeia de suprimentos do café, onde facilita a integração de informações, reduz o retrabalho e apoia a verificação da origem e das condições de produção”, afirma. Ela explica que o CNC acompanha as demandas do mercado e incentiva as cooperativas a testarem diferentes soluções, identificarem áreas de melhoria e avaliarem como elas podem se encaixar nas rotinas e sistemas já em uso pelas equipes, otimizando, assim, as operações internas. “Oferecer tecnologias gratuitas que foram validadas por instituições oficiais faz a diferença, pois pode reduzir custos que atualmente oneram as cooperativas e acabam sendo repassados aos produtores”, conclui.
Plataforma AB+S
A tecnologia estará disponível como parte integrante da Plataforma AgroBrasil Mais Sustentável ( AB+S ) do Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ), plataforma oficial do governo brasileiro para a Europa e outros mercados, e também poderá ser acessada pela plataforma AgroAPI. Os relatórios de conformidade gerados em cada etapa da produção são acessíveis por meio de tokenização (código QR) e fornecem justificativa técnica para o país negociar o acesso ao mercado ou contestar barreiras comerciais.
Segundo Lara Line de Souza, coordenadora da AB+S no MAPA, “a complementaridade das soluções permite uma melhor integração, consistência e confiabilidade das informações, visto que a AB+S avalia o desempenho socioambiental das operações rurais em relação às exigências legais e de mercado, enquanto a Embrapa Trace fornece informações relacionadas à rastreabilidade da produção”.
A ferramenta também permite ao Brasil manter o controle nacional sobre seus dados de produção agropecuária, utilizando tecnologia de ponta para criar trilhas de auditoria imutáveis por meio de tokens digitais, o que garante a segurança da informação e a certificação digital. Novas cadeias de suprimentos serão adicionadas em breve, como cacau, madeira, borracha, frangos de corte, suínos e peixes da pesca industrial (atum) e da aquicultura (tilápia).
“Em um contexto de crescente demanda por transparência nas cadeias de suprimentos, as ferramentas de rastreabilidade estão ganhando destaque, permitindo que informações sobre origem, conformidade ambiental e critérios sociais acompanhem o produto ao longo de toda a cadeia. Nesse contexto, soluções tecnológicas de rastreabilidade, como o Embrapa Trace, servem como ferramentas complementares aos esforços já empreendidos pelo governo brasileiro por meio da plataforma AB+S”, observa Eduardo Chikusa, chefe da Divisão de Comércio Internacional do Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores ( MRE ).
O diplomata explica que, embora a AB+S colete e integre informações sobre requisitos sociais e ambientais de fontes oficiais, a rastreabilidade ajuda a vincular essas informações aos fluxos de produção e logística. Isso aumenta a capacidade de demonstrar, de forma transparente e verificável, a conformidade com os requisitos estabelecidos pelos compradores internacionais. Portanto, “é a ponte que conecta a sustentabilidade no campo à confiança exigida pelos mercados globais”, observa Chikusa.
Os protocolos de rastreabilidade digital, que promovem a conformidade com os requisitos internacionais, a padronização de dados e a interoperabilidade, constituem a base do Embrapa Trace. Eles permitem o rastreamento da origem, movimentação, consolidação e processamento de lotes.
Os dados primários de produção são fornecidos pelos agricultores aos operadores (fábricas de processamento, frigoríficos, fábricas de óleo e cooperativas), que utilizam o Embrapa Trace para validar o processo. Os comerciantes registram os dados de origem e destino para que organizações independentes, como organismos de certificação e verificação, possam atestar a conformidade dos produtos.
O processo começa com o cadastro da propriedade, dos agricultores e das áreas de produção, seguido pelo monitoramento das práticas agrícolas e da conformidade agroambiental ao longo de todo o ciclo produtivo. Isso inclui o registro da origem, do volume e da data de produção, garantindo que não haja contaminação proveniente de áreas não conformes. Durante a etapa de pós-produção e logística, o transporte e o armazenamento são monitorados para assegurar a segregação e a rastreabilidade do produto. O processamento envolve a triagem nas instalações de processamento, com controle de balanço de massa (produção vegetal) e lotes consolidados (produção animal). Tudo isso garante a rastreabilidade completa do campo ao destino.
A integração das tecnologias Embrapa Trace, TerraClass e ElegiAgro possibilita a incorporação do monitoramento territorial, da avaliação de elegibilidade e da rastreabilidade em uma infraestrutura tecnológica essencial para a integração competitiva da agricultura brasileira nos mercados mais exigentes. Segundo Stanley Oliveira , chefe da Embrapa Agricultura Digital, “em vez de responder individualmente às exigências de cada comprador ou órgão regulador, essa abordagem possibilita a criação de um banco de dados nacional com informações confiáveis sobre produção sustentável, o que reduz custos de conformidade, evita a duplicação de esforços e proporciona maior segurança a agricultores, empresas, governo e mercados consumidores”.
EUDRO Regulamento da União Europeia sobre o Desmatamento (EUDR) exige que os exportadores para o mercado europeu demonstrem que seus produtos não estão ligados a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020, prazo estabelecido para o desmatamento zero. A norma afeta as exportações brasileiras de gado, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, bem como produtos derivados desses setores. A partir de 30 de dezembro de 2026, os grandes e médios exportadores nacionais deverão comprovar conformidade ambiental por meio de rastreabilidade baseada em geolocalização para cada área de produção, documentação da cadeia de suprimentos e uma avaliação formal de risco de desmatamento com base em dados de monitoramento territorial, apresentada por meio de uma declaração de due diligence. Para os micro e pequenos produtores, o prazo para adequação à nova legislação é 30 de junho de 2027. “Além de facilitar o cumprimento das exigências regulatórias e do setor privado, a rastreabilidade agrega valor às exportações brasileiras, oferecendo mais segurança a importadores, investidores e consumidores. Em mercados cada vez mais exigentes, a capacidade de verificar a origem e a sustentabilidade dos produtos tende a se traduzir em vantagens competitivas, maiores oportunidades comerciais e uma reputação mais sólida para o agronegócio nacional. Aqueles que puderem comprovar a sustentabilidade com evidências terão acesso a mercados, reduzirão os riscos em suas operações comerciais e aumentarão o valor percebido de seus produtos”, acrescenta o diplomata.
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Os vídeos mostram os benefícios da rastreabilidade.A rastreabilidade é a ferramenta que nos permite entender a longa jornada que o alimento percorre antes de chegar à mesa do consumidor. Códigos de barras e códigos QR funcionam como passaportes digitais que revelam a origem de um produto e as etapas pelas quais ele passou antes de chegar ao mercado. Os vídeos a seguir mostram como essa tecnologia funciona em diferentes cadeias de produção. Clique no nome de cada produto para assistir: Cacau – Com uma simples leitura, você pode acessar informações como a origem do produto, sua produção e os responsáveis por ele, garantindo transparência em todas as etapas do processo. Café – Um código QR na embalagem permite rastrear toda a jornada do café, da fazenda de origem ao produtor responsável. Carne bovina – A rastreabilidade fortalece a confiança do consumidor, a sustentabilidade e a qualidade da carne bovina brasileira. Soja – Da geolocalização ao cultivo responsável, a rastreabilidade ajuda a garantir que a soja seja produzida fora de áreas de desmatamento recente e em conformidade com a lei. |







