A madeira engenheirada vem ampliando sua presença na construção brasileira e começa a conquistar espaço também como ativo capaz de agregar valor aos empreendimentos. Essa foi uma das principais mensagens do Seminário da Associação Brasileira da Construção Industrializada em Madeira Engenheirada (Abracime), durante o Modern Construction Show, que reuniu fabricantes, arquitetos, construtores e investidores para apresentar projetos e discutir as perspectivas do mercado. O potencial da solução do ponto de vista do investidor foi destacado por Calil Neto, CEO da Rewood, e Filipa Beirôco, diretora de Marketing e Comunicação do Grupo Catuaí, a partir do projeto de um edifício corporativo monousuário localizado na esquina das ruas Estados Unidos e Consolação, em São Paulo.
O empreendimento, assinado pelo escritório SPOL Architects, foi concebido com core principal de concreto, lajes de concreto moldadas in loco e pilares, vigas e lajes em madeira laminada colada, além de fachada em pele de vidro e brise metálico externo. Para Filipa, a escolha está associada à estratégia de valorização patrimonial de longo prazo e fez da madeira engenheirada um diferencial do projeto. “Apostamos na madeira engenheirada, que se tornou um diferencial significativo do edifício”, afirmou. Segundo ela, a arquitetura esbelta e leve combina sofisticação e sustentabilidade e já desperta o interesse do mercado, com propostas de compra e locação em análise.
“O material tem ganhado cada vez mais forma e tem atraído não somente os investidores pelo valor financeiro, que é competitivo junto ao pré-moldado e aos esqueletos metálicos ou aos outros materiais, mas pela beleza e pela pegada de carbono”, afirmou Calil Neto.
Edifícios híbridos ampliam as possibilidades de aplicação
Um dos exemplos dessa evolução é o edifício Ibá, em construção na região do Ibirapuera, em São Paulo, apresentado por Hélio Olga, diretor-executivo da Ita Engenharia em Madeira, e Murilo Gabriele, sócio-fundador do Estúdio BG. Com sete pavimentos, o empreendimento residencial de alto padrão é apontado pelos autores como o primeiro prédio da cidade com estrutura de madeira. O projeto combina núcleo rígido de concreto com lajes e vigas de madeira engenheirada, além de diferentes soluções de fachada.
Concebido ao longo de três anos de planejamento, o empreendimento ocupa um terreno compacto e tem um apartamento por pavimento. A aprovação junto ao Corpo de Bombeiros levou à adoção do núcleo central de circulação e escadas em concreto, moldado no próprio canteiro, que funciona como espinha dorsal para a montagem das estruturas de madeira. A fachada utiliza painéis pré-fabricados de concreto reforçado com fibra de vidro e caixilhos incorporados, enquanto a madeira permanece aparente nos interiores. A fundação foi concluída e a previsão é de entrega em agosto de 2027.
Outro exemplo apresentado no seminário foi o edifício corporativo Lief Macunis. Cíntia Valente, CMO – Marketing, People & Sustainability da NoaTech Brasil, mostrou como a combinação de madeira, aço e concreto pode ser utilizada para criar empreendimentos voltados ao bem-estar dos usuários e, ao mesmo tempo, gerar retorno ao investidor. O empreendimento alcançou aluguel acima da média de Pinheiros e teve seus espaços locados antes da conclusão.
A experiência com estruturas híbridas também apareceu no Aeroporto Regional de Ribeirão Preto, apresentado pelo arquiteto Marcelo Barbosa, da Bacco Arquitetos. Com 10 mil m², o projeto incorporou madeira laminada colada à estrutura de um terminal existente de 4 mil m², sem interromper as operações do aeroporto. Pilares e vigas de madeira foram apoiados sobre fundações de concreto, em uma solução que também incorpora princípios de biofilia, ventilação e iluminação natural e espelhos-d’água. O projeto é pioneiro no país no uso de madeira laminada colada em um aeroporto.
A Crosslam participou do empreendimento nas etapas de projeto, fabricação e montagem das estruturas. José Alberto Gonçalves, diretor da empresa, afirmou que a industrialização e o planejamento antecipado permitem reduzir adaptações no canteiro, enquanto pesquisas e experiências acumuladas ao longo de décadas contribuem para a segurança e a confiabilidade das estruturas.
A aplicação da madeira engenheirada em empreendimentos sociais foi apresentada pela Urbem em parceria com o escritório Todescan & Siciliano Arquitetura, a partir do projeto da nova Casa Ronald McDonald de Goiânia. Segundo Ana Belizário, diretora de Novos Negócios da Urbem, o projeto buscou traduzir os valores da instituição por meio da arquitetura, explorando o aconchego e a sustentabilidade associados à madeira. Frank Siciliano, sócio da Todescan Siciliano Arquitetos, destacou a adoção de princípios de biofilia, com amplos terraços e pátios inspirados no cerrado, fechamentos em steel frame e drywall e um telhado verde com espécies nativas. Iniciada em janeiro deste ano, a obra tem conclusão prevista para dezembro e, segundo o escritório, deve reduzir pela metade o prazo em relação a uma construção convencional.
Segurança contra incêndio acompanha expansão do setor
O avanço da madeira engenheirada também exige o desenvolvimento de referências técnicas e soluções de segurança. Rogério Lin, diretor-presidente da Associação Brasileira de Proteção Passiva Contra Incêndio (ABPPC), abordou o comportamento do material em situações de incêndio, considerando tanto a madeira sem proteção quanto sistemas com revestimentos intumescentes, que iniciam o processo de intumescência a partir de determinada temperatura e formam uma camada carbonácea que contribui para proteger a madeira e proporcionar isolamento térmico.
O especialista ressaltou a importância da combinação entre diferentes sistemas, citando estruturas como lajes e rotas de fuga em concreto como alternativas que podem contribuir para a segurança dos empreendimentos. Ele chamou atenção especialmente para as conexões, que podem representar pontos críticos quando não são adequadamente protegidas contra o fogo.
Sistemas complementares ampliam competitividade
A necessidade de combinar a madeira com outros sistemas também foi abordada por João Casari, Advocacy Manager da Saint-Gobain Brasil, e Alexandre Hiroaki Takara, coordenador comercial de Projetos e Sistemas da empresa, que destacaram a experiência acumulada pela companhia no mercado europeu de construções em madeira e a estratégia de trazer esse conhecimento para o Brasil. A competitividade dos edifícios em madeira passa pela adoção de soluções híbridas e pela integração com sistemas de vedação.
Adriana Machado, superintendente de ESG e Desenvolvimento de Negócios da HTB Engenharia, abordou o avanço da agenda ESG e da madeira engenheirada no país, apresentou as principais fabricantes em operação no mercado nacional e mostrou aplicações do material em diferentes segmentos, com destaque para hotelaria e soluções associadas à biofilia.
A expansão da madeira engenheirada também impõe novos desafios à gestão das obras. Em apresentação conjunta com Lula Gouveia, sócio da Supelimão Studio, Guilherme Nogueira, gerente de P&D, Marketing e Qualidade da DOX Gerenciamento de Projetos e Obras, abordou os cuidados necessários desde a contratação de fornecedores até o acompanhamento da fabricação, montagem e acabamento. Segundo ele, a utilização de um sistema industrializado exige atenção aos detalhes em todas as etapas, especialmente por se tratar de um método ainda recente no mercado brasileiro.
Uma realização da Francal, o Modern Construction Show tem a Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM), a Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic) e a Associação Brasileira da Construção Industrializada em Madeira Engenheirada (Abracime), como entidades correalizadoras.







