O governo estadual bem que tentou manter o Festival América do Sul como “um encontro cultural latino-americano”, como ele foi proposto quando de sua criação. Porém, há alguns anos o evento, que nasceu na gestão do ex-governador Zeca do PT, perdeu sua essência artístico-cultural da fronteira. Este ano, a programação foi pobre. Especialmente na parte musical, onde as grandes estrelas do continente que abrilhantaram as primeiras edições, deram lugar a performances como a do DJ Dennis, que abocanhou um cachê de R$ 550 mil e de pagodes.
A cada ano, desde o governo de André Puccinelli, o festival vem perdendo seu propósito, que sempre foi de integrar os países latinos num encontro da pluralidade cultural, valorizando a diversidade e promovendo o intercâmbio de saberes, práticas locais e expressões artísticas. Ao contrário de outros festivais, como o de Bonito, o América do Sul ainda sofreu interrupções, uma prova cabal do pouco interesse governamental em sua perenidade.
A edição que começou no dia 14 e encerrou no domingo (17) esteve longe da grandeza que a Fundação de Cultura do Estado tenta transmitir, por meio das redes sociais e noticiário carregado de exaltação da comunicação governamental – uma tentativa clara de mexer com o bairrismo do corumbaense, como pano de fundo, e justificar o alto gasto com um evento que não atraiu o mesmo público do passado, justamente pela falta de bons espetáculos.
A propaganda do governo fala em transformar “a nossa Cidade Branca no maior palco de encontros, cultura e memória do continente”. Ou ainda: “será um dos maiores eventos multiculturais do país”. Ou mais: “o festival propõe uma travessia pelos territórios simbólicos da América do Sul, conectando fronteiras por meio da arte”. E na verdade, faltou maior conexão até mesmo com a Bolívia, país que está mais próximo de Corumbá. Também faltaram os debates de temas relevantes das fronteiras de Paraguai, Chile, Argentina, Uruguai.
Na abertura do festival, houve a tentativa de dar um tom de latinidade com a homenagem tardia a compositora e cantora argentina Mercedes Sosa, que faria show na sexta edição de 2009, mas não veio por causa de uma pneumonia. Ela foi tema da apresentação da Orquestra de Câmara do Pantanal e da Sinfônica de Campo Grande, reunindo as cantoras Juci Ibanez, Marta Cel e Lorraine Espíndola. A ausência do Governador do Estado e outras autoridades na abertura também foi vista como mais um apequenamento de um evento que nasceu para ser grande, se tornar algo definitivo para Corumbá e países vizinhos.
Pouco público no primeiro dia
Sem uma grande atração, o público não prestigiou o primeiro dia do festival. Esse fato foi avaliado em função da programação musical que se encerrou com show gospel do DJ Pedro Victor Stecca Ferreira, conhecido como DJ PV, que abocanhou um cachê de R$ 90 mil por 1h30 de show. Os pastores evangélicos tomaram conta do palco principal, dentre eles Wilton Melo Acosta, presidente do Conselho Estadual de Pastores de Mato Grosso do Sul (CONSEPAMS) e condenado por desvio de recursos do antigo Banco do Povo.
As grandes “atrações” anunciadas este ano, na verdade, não tinham identidade com o propósito do festival. O governo estadual gastou quase R$ 1,5 milhão com o DJ Dennis, o cantor Marcelo D2 (que já se apresentou anteriormente) e o pagodeiro Dilsinho. A justificativa dos organizadores: o corumbaense gosta desses gêneros musicais. Mas em se tratando de cultura de um povo fronteiriço, o que o pagode ou a música de DJ tem a ver com o corumbaense? Foi falta de expressão artística para um festival que nasceu com a proposta de ser voltado para a cultura sul-americana e que deveria representar a arte e os costumes das fronteiras dos países envolvidos.
O corumbaense, com certeza, tem saudades dos festivais do passado. Havia compromisso com a grandiosidade do evento e aconteceram shows de ícones da música como Mário Zan, o argentino Fito Paez, os paraguaios Los Tammys e Néstor ló y Los Caminantes, o acordeonista gaúcho Renato Borghetti, o violonista Yamandu Costa, Martinho da Vila, Almir Sater, Margareth Menezes, Grupo Acaba e muitos outros.
Que os organizadores dos próximos festivais da América do Sul consigam preservar a proposta inicial do evento, e dessa forma, pensem nele como uma festa efetivamente cultural e voltada para os povos regionais das fronteiras latino-americanas.
(Da Redação)







