Uma análise em escala nacional confirmou o potencial das gramíneas tropicais de raízes profundas, como a braquiária, para contribuições à produtividade da soja e promoção da saúde do solo. O estudo, liderado pela Embrapa e publicado na Revista Agronomia , consolida evidências de diferentes pesquisas realizadas no Brasil e reforça o papel dessas plantas na intensificação sustentável da agricultura.
As informações foram obtidas a partir de uma meta-análise realizada por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF), em parceria com a Embrapa Solos (RJ), o Instituto Federal Catarinense ( IFC ) e a Universidade Federal Tecnológica do Paraná ( UTFPR ). A meta-análise é um método científico que reúne e analisa resultados de diversos estudos sobre um mesmo tema, proporcionando contribuições mais robustas.
“As gramíneas tropicais estão cada vez mais presentes nos sistemas agrícolas brasileiros. No entanto, ainda faltava uma avaliação em escala nacional sobre os impactos dessa prática na saúde do solo e na produtividade da soja. Realizamos esse trabalho para cobrir essa lacuna”, afirmou a pesquisadora da Embrapa Cerrados Ieda Mendes .
Segundo Mendes, uma meta-análise publicada na revista Agronomy utilizou 55 trabalhos publicados até fevereiro de 2026 ( confira critérios de inclusão no quadro abaixo ), abrangendo ensaios de campo transitórios em 33 localidades no Brasil. O objetivo foi avaliar os efeitos de gramíneas tropicais de raízes profundas, utilizadas como culturas antecessoras (plantas cultivadas antes da implantação da cultura principal anual), sobre indicadores biológicos da saúde do solo e a produtividade da soja.
Critérios de inclusãoAs publicações foram identificadas por meio de redes de especialistas e busca por referências. Cada publicação foi avaliada para verificar o atendimento aos seguintes critérios de inclusão: 1) comparação entre tratamentos com e sem o cultivo de gramíneas tropicais antes da soja (ou seja, gramíneas tropicais como cultura antecessora versus pousio ou sem cultura antecessora); 2) comparação entre monocultivo de grãos (controle) e cultivo de grãos em consórcio com gramíneas tropicais antes da soja (tratamento experimental); 3) estudo conduzido em condições de campo no Brasil; 4) disponibilidade de dados quantitativos extraíveis de texto, tabelas ou figuras; 5) publicação em formato de artigo em periódico científico, dissertação de mestrado, tese de doutorado, capítulo de livro, livro ou boletim técnico. |
Resultados
Os resultados mostraram que as gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente do gênero Urochloa (antes chamada Brachiaria, que originou o termo braquiária), promovem aumento de 15% na produtividade da soja, o que representa um incremento médio de 515 kg por hectare e uma receita adicional de US$ 198 por hectare. Uma análise de diferentes espécies forrageiras, sistemas de manejo, cultivares de soja e condições edafoclimáticas indicou efeitos positivos em todas as situações avaliadas.
No caso das braquiárias, considerando que são utilizados de 3 a 10 kg por hectare de sementes para o seu estabelecimento, com preço médio de três dólares por quilo, o custo para sua introdução nos agroecossistemas é relativamente baixo, variando entre US$ 9 e US$ 30 por hectare.
De acordo com a pesquisadora, os indicadores de saúde do solo nas áreas cultivadas com as braquiárias também obtiveram incrementos expressivos, com destaque para a atividade das enzimas arilsulfatase (+35%) e β-glicosidase (+31%), seguidas pela fosfatase ácida (+20%), e pelo carbono da biomassa microbiana (+24%) e carbono orgânico (+11%).
Efeito de gramíneas tropicais de raízes profundas como culturas antecessoras, na produtividade de grãos de soja e atributos do solo (atividade enzimática, biomassa microbiana e carbono orgânico total). Os valores representam as médias dos efeitos, e as barras horizontais indicam os intervalos de confiança de 95%, com o número de comparações apresentadas entre parênteses. Os círculos pretos indicam a média do efeito para cada variável. A área em verde destaca a produtividade de grãos de soja como principal variável de resposta agronômica a
“De forma geral, as enzimas do solo responderam com maior intensidade ao uso de gramíneas tropicais, com aumentos médios de cerca de 31% — quase três vezes superiores aos observados para o carbono orgânico. Esse resultado reforça o potencial dessas enzimas como indicadores sensíveis das mudanças na saúde do solo. É importante destacar que durante a busca na literatura foram identificadas publicações sobre os efeitos das gramíneas tropicais nos atributos químicos e físicos do solo. No entanto, devido ao baixo número de comparações disponíveis, esses estudos não serão incluídos na meta-análise”, explicou a pesquisadora.
Das 55 publicações elaboradas, nenhuma corresponde ao período entre 2000 e 2010. Dezoito estudos foram publicados entre 2011 e 2020, enquanto 37 foram publicados entre 2021 e 2025. Esse aumento expressivo ao longo do tempo reflete o interesse crescente pelo uso de gramíneas de raízes profundas na agricultura brasileira.
Outro dado relevante é que, de um total de 173 comparações avaliadas, 154 obtiveram ganhos de produtividade, variando de 30 a 2.200 kg por hectare. Apenas 19 comparações (11%) indicaram reduções, com perdas entre 11 e 672 kg por hectare. Na maioria dos casos, essas reduções não foram estatisticamente significativas e estavam associadas a falhas de manejo no estabelecimento das gramíneas.
Segundo a pesquisadora, os resultados confirmam os efeitos benéficos das gramíneas tropicais de raízes profundas e destacam sua contribuição para a intensificação sustentável dos sistemas agrícolas, especialmente pela capacidade de melhorar a saúde do solo. “Isso, por sua vez, resulta no aumento da produtividade da soja na maioria das condições agronômicas e ambientais”, afirmou.
Ilustração esquemática que sintetiza os principais efeitos positivos do cultivo de gramíneas tropicais de raízes profundas sobre os indicadores biológicos da saúde do solo e da produtividade da soja em condições de campo no Brasil
Implicações para uma intensificação sustentável
De acordo com um pesquisador, essa meta-análise revelou evidências robustas de que gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente espécies do gênero Urochloa, devem ser reconhecidas não apenas como plantas de cobertura, mas como poderosos insumos biológicos em sistemas agrícolas regenerativos e conservacionistas.
“Sua capacidade de fornecer múltiplos serviços ecossistêmicos — como a promoção da atividade microbiana, a melhoria da agregação do solo e da ciclagem de nutrientes, o aumento dos estoques de carbono orgânico e a maior infiltração de água — posicionadas gramíneas na vanguarda das soluções na natureza para a intensificação sustentável”, afirma.
Nesse contexto, essas gramíneas funcionam como bioinsumos vivos, capazes de regenerar simultaneamente a saúde do solo e aumentar a produtividade das culturas. Segundo Ieda Mendes, essa abordagem amplia o conceito de bioinsumos: passa a incluir não apenas produtos formulados, mas também organismos vivos como as plantas, que interagem com os agroecossistemas para promover resiliência, eficiência e sustentabilidade.
“A adoção em larga escala dessas gramíneas como culturas antecessoras em sistemas de produção de soja representa, portanto, não apenas uma solução tecnológica, mas um investimento estratégico no solo como um ativo vivo, que reforça o papel central da funcionalidade biológica na promoção da sustentabilidade, da produtividade e da resiliência dos agroecossistemas”.
Foto: Ieda Mendes (a imagem mostra o pesquisador Lourival Vilela, um dos autores do trabalho, e a profundidade das raízes)
seAcesse aqui o trabalho, de autoria de Julierme Zimmer Barbosa, do Departamento de Agronomia do Instituto Federal Catarinense; Giovana Poggere, do Departamento de Biologia e Ciências Ambientais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná; Lourival Vilela, da Embrapa Cerrados; Pedro Luiz de Freitas, da Embrapa Solos; e Ieda Carvalho Mendes, também da Embrapa Cerrados. Toda a base de dados utilizada na meta-análise pode ser encontrada neste endereço . |
Juliana Caldas (MTb 4861/DF)
Embrapa Cerrados
Consultas da imprensa
juliana.caldas@embrapa.br
Número de telefone: (61) 3388-9945









